Carrossel

Movimento e cores nunca faltaram no carrossel de emoções do Skank e olha aí que lá se vão nada menos que 15 anos desde que essa roda iluminada começou a girar. Quem estava lá lembra bem: tudo aconteceu justamente numa época em que o mercado brasileiro praticamente dava como encerrado o movimento de pop-rock da década anterior.

Desconfiados mas atrevidos, os garotos de Belo Horizonte se recusaram a acreditar que não havia espaço para o novo e, com uma boa dose do velho espírito roqueiro faça-você-mesmo, gravaram um CD uma ousadia para tempos de vinil, ainda mais porque era (imagina!) feito de forma totalmente independente. Mas, ao saírem de casa mais cedo que as outras bandas, eles conseguiram guardar um bom lugar no carrossel daquela fervilhante e vertiginosa década de 90, liderando paradas e arrebatando corações com músicas como “É Proibido Fumar”, “Te Ver”, “É uma Partida de Futebol” e “Garota Nacional” faixa esta que ultrapassou as barreiras do país e fez dos caras de BH um fenômeno latino.

Mas o tempo passa, o público fica mais velho, os filhos nascem, novos admiradores chegam e uma nova geração de artistas briga por sua vez de também andar naquele brinquedo chamado sucesso. E o Skank se movimenta junto. De outra forma, não estaria aqui, lépido e fagueiro, para lançar Carrossel, nono álbum de sua carreira.

Para entender como é que Samuel Rosa (vocais e guitarras, muitas guitarras), Henrique Portugal (teclados), Lelo Zaneti (baixo) e Haroldo Ferretti (bateria) chegaram a esse disco de canções buriladas e psicodelia madura que você tem nas mãos, é preciso antes lembrar das voltas que o Skank deu. Lentamente, aquela banda foi trocando o reggae dancehall com aromas brasileiros dos primeiros discos por um rock clássico, farto em refrões e sonoridades e aquele som que, aos ouvidos de muitos, parecia uma ousadia inconseqüente (principalmente a partir do CD Maquinarama, de 2000), hoje em dia é o mais puro Skank. “Carrossel é o nosso disco mais homogêneo, a síntese da nossa fase 1 com a fase 2″, define Samuel, o principal melodista da banda.

Trocando em miúdos, o que ele quer dizer é que no novo disco o Skank não abriu mão das experimentações, mas se manteve firme no compromisso com a música para tocar no rádio e tudo sem forçar barras, com aquela naturalidade que só a quilometragem de estrada pode dar. De novembro a junho, os músicos ficaram em Belo Horizonte compondo, preparando as bases, acionando os letristas, ensaiando e gravando o resultado. Chegaram a 25 faixas, das quais 15 ganharam seu lugar em Carrossel. “Das 10 que sobraram, umas seis ou sete poderiam estar lá”, garante Samuel. É fertilidade e movimento, sem perder os ganchos pop.

Em caso de dúvida, vale começar o disco pelo primeiro single, “Uma Canção é Pra Isso”, parceria de Samuel com Chico Amaral, o mais constante dos colaboradores da banda. Um power pop de primeira, com citação de “Pinball Wizard”, do The Who, e letra que não esconde as intenções: “uma canção é pra trazer calor / é pra deixar a vida mais quente”. Se é permitido apostar em outro hit para Carrossel, as fichas vão para “O Som da Sua Voz”, outra de Samuel e Chico, com guitarras densas e emocionadas, beirando o Weezer, e mais um daqueles refrões capazes de prostrar o mais duro dos seres humanos: “quando a noite estender seu manto sobre nós / meu abrigo então será o som da sua voz”.

Abusando da clarividência amadora, uma faixa que também nasce com vocação para sucesso é a balada pianeira “Seus Passos”, de Samuel com César Maurício, vocalista da banda Radar Tantã. Eis aí uma digna sucessora de “Dois Rios” (aquele hit do CD Cosmotron, de 2003) na programação do radinho que existe na cabeça de cada um dos seguidores do Skank. Ela é bem assim como diz o refrão: “eu sigo seus passos / a caminho do coração”.

O título do disco é Carrossel, mas bem que poderia também ser Caleidoscópio. Porque, a cada giro da bolachinha sob o feixe de laser, novas cores se apresentam, em combinações sonoras que comovem, divertem, desorientam… De um lado, tem a garageira de “Até o Amor Virar Poeira”, jovem guarda com saturação nos amplificadores e um dos psicodélicos solos de guitarra de Samuel.

A viagem sixties pelas portas da percepção é refeita pelo Skank em faixas como “Panorâmica” (com intervenções de cravo e tímpano), “Balada Para João e Joana” (com a mais nova incorporação da banda: um banjo) e “Garrafas”, na qual Chico Amaral veste de imagens surrealistas uma composição de Lelo que poderia estar em qualquer um dos volumes da compilação Nuggets: “as garrafas jogadas no chão, as garotas vestidas ou não, os bongôs marroquinos no chão / e ela me mostrou o seu violão que eu dedilhei”. É puro Mutantes safra 1968.

Convidados especialíssimos deram as caras nesse Carrossel para partilhar da curtição do Skank. O ex-titã Nando Reis, parceiro desde o “É uma Partida de Futebol”, volta a compor com Samuel em “Eu e a Felicidade”, rock com violão folk, cordas, teclados Moog, solo psicodélico de guitarra e uma daquelas letras de inconfundível autoria: “e sem explicar eu olhei pra baixo / e vi no terreno um trevo de cinco folhas / que é muito mais raro / e eu entrei numa astronave”. Humberto Effe, do grupo carioca Picassos Falsos, reaparece em duas músicas com Samuel, “Cara Nua” e “Notícia”, que é uma suíte em três partes, nas quais rola de folk-country e psicodelia a drum’n’bass. Rodrigo F. Leão, do grupo paulistano Professor Antena, é outro que volta em discos do Skank, com “Anti-Telejornal”, uma das faixas de acento latino do disco (a outra é a tex-mex “Um Homem Solitário”, de Samuel Rosa, César Maurício e Chico Amaral). E por falar em César, que debuta em discos do Skank, ele também letrou “Lugar”, balada psicodélica de Samuel, com refrão forte à la “With a Little Help From My Friends” na versão de Joe Cocker. Mas a grande estréia nas letras de Carrossel é a de um outro ex-titã, Arnaldo Antunes, que compôs com Samuel a balada folk “Trancoso” fechando o CD em bem-vindo clima praieiro.

Para embalar essa criação tão rica em sonoridades, foi convocado o mestre dos timbres Chico Neves, que trabalhara com o Skank em Maquinarama e produziu 11 das 15 faixas de Carrossel. As outras quatro ficaram a cargo de Carlos Eduardo Miranda, uma referência espiritual do rock feito no Brasil a partir dos anos 90, célebre pela produção do primeiro disco dos Raimundos e pela força que deu ao Skank desde a fase independente mais que um produtor, um velho brother da rapaziada. E por falar em embalar, antes que alguém pergunte pela capa, ela foi feita por Marcus Barão em cima do quadro pop-surrealista Carousel of Souls, do artista americano Glenn Barr, integrante do movimento underground que vem fazendo a mais rock’n’roll das artes plásticas (e os discos de rock com as melhores capas). Glenn é da mesma turma de Kenny Scharf (que fez a arte da capa de Maquinarama) e dos Clayton Brothers (dos desenhos que ilustram a da coletânea Radiola, de 2004).

Tudo em casa, afinal não é de hoje que o Skank anda ligado nesse grande mundo véio de rock que gira e fascina, repleto de luzes e sons. Mas agora chega de papo furado, porque é hora de o Carrossel começar a girar no tocador de CDs.

Carrossel é o nono álbum do Skank e foi lançado em 2006. Possui quinze canções inéditas.

Faixas

1. Eu e a Felicidade

Eu e a Felicidade

Samuel Rosa - Nando Reis

E afinal ela quer me entregar
Ou não quer?
Um beijo letal
E some no espaço
E afinal de onde vem
Será que tem mais também?
Não ouço sinal
Ninguém nesse rádio

Ela entrou numa astronave
O seu sonrisal cápsula
Circular sensual
De longe chegou
Habitante de Marte
Depois de morder me deu um soco e assoprou
Depois de comer lavou suas mãos e enxugou
E eu não passo de um brinquedo
Desmontável

Mas no meu quintal desceu essa nave de Vênus
Vestida de noiva
De véu e grinalda
E sem explicar eu olhei para baixo
E vi no terreiro
Um trevo de cinco folhas
Que é muito mais raro

E eu entrei numa astronave
E sem avental, sem sapato ou gravata flutuei, levitei
Muito acima do asfalto
Eu e a felicidade

Que depois de me ver mostrou seu rosto e acenou
Depois disse adeus, beijou minha boca e abençoou
Ela não passa de um desejo
Inflamável

Natural é ter um trabalho, um salário
Um emprego
Nome confiável
Respeito na praça
Mas afinal o que é felicidade?
É sossego
Nesse mundo pequeno
De tempo e espaço

Ela só vem dizer que quem nasceu já conquistou
O reino de Deus é um direito
Não é um milagre

2. Uma Canção é Pra Isso

Uma Canção é Pra Isso

Samuel Rosa - Chico Amaral

Uma canção é pra acender o Sol
No coração da pessoa
Pra fazer brilhar como um farol
O som depois que ressoa

Uma canção é pra trazer calor
Deixar a vida mais quente
Pra puxar o fio da paixão
No labirinto da gente

Pra consertar
Pra defender a cidadela
Pra celebrar
Pra reunir bairro e favela

Uma canção me veio sem querer
Naquela hora difícil
Joguei-a logo nesse iê iê iê
Por profissão ou por vício

Pra clarear a escuridão
E o mundo encerra
Pra balançar
Pra reunir o céu e a terra

Uma canção é pra fazer o Sol
Nascer de novo
Pra cantar o que nos encantou
Na companhia do povo

Pra consertar
Pra defender a cidadela
Pra celebrar
Pra reunir bairro e favela

Uma canção é pra acender o Sol
No coração da pessoa
Pra fazer brilhar como um farol
O som depois que ressoa

Pra clarear a escuridão
E o mundo encerra
Pra balançar
Pra reunir o céu e a terra

3. Até o Amor Virar Poeira

Até o Amor Virar Poeira

Samuel Rosa - Chico Amaral

Quem te disse que eu não mereço
Uma pobre migalha de atenção
Quem te disse que eu desconheço
A tal milenar arte do amor

Captura minhas intenções
Me atura no coração
Seja então menos exigente
Porque a gente já tem o bastante

Você tem outras qualidades
E pode me dar as costas
Até o amor virar poeira

Só não compensa
Apagar a chama, negar os fatos
Sua presença
Como um sol me chama a vida inteira
Ilusão, eu quero crer que não

Quem te disse que eu não consigo
Parar numa próxima estação
Quem te disse que eu não desligo
O cabo dessa televisão
Meu amor, vamos dar o fora
Chorar em comédias outras
Até o amor virar poeira

Só não compensa
Apagar a chama, negar os fatos
Sua presença
Como um sol me chama a vida inteira
Ilusão, eu quero crer que não

Até o amor virar poeira

Só não compensa
Apagar a chama, negar os fatos
Sua presença
Como um sol me chama a vida inteira
Ilusão, eu quero crer que não

4. O Som da Sua Voz

O Som da Sua Voz

Samuel Rosa - Chico Amaral

Não me deixe na chuva não
Não me tire do coração
Não me diga que vai sem mim
Já conheço esse teu olhar

Uma luz a se afastar
A quilômetros daqui
Não me deixe na noite não
Na travessa da desolação

Não me diga que quer assim
Porque ali não há calor
Não há luz nem há razão
E não há o teu riso

Tudo está tão certo, não está?
Vem aqui mais perto, vem mostrar
Vem dizer aonde vai seu olhar

Quando a noite estender seu manto sobre nós
Meu abrigo então será o som da sua voz

5. Cara Nua

Cara Nua

Samuel Rosa - Humberto Effe

Eu saí de casa, a rua colorida
Fantasias, foliões conseguem me mostrar
Que um rosto sem máscara
Esconde mais com a cara nua
Sempre tem um sorriso largo
Mostrando o que não é

Uma máscara perdida nesse chão
Tem a forma do seu rosto
Que só finge por aí
Escondendo uma palavra
Mente a todas as canções
Cada frase inicia um discurso de ilusões

Que dia é esse que só nasce pra você?
Quando chega o carnaval
Mais ninguém te encontra
Pra você são só uns dias
Você quer ter a vida inteira
Com a cara toda nua
Brincar com quem quiser

6. Mil Acasos

Mil Acasos

Samuel Rosa - Chico Amaral

Mil acasos me levam a você
O sábado, o signo, o carnaval
Mil acasos me levam a você
A feira, o feriado nacional

Mil acasos me levam a perder
O senso, o ritmo habitual
Mil acasos me levam a você
No início, no meio ou no final
Me levam a você
De um jeito desigual

Mil acasos apontam a direção
Desvios de rota é tão normal
Mil acasos me levam a você
No mundo concreto ou virtual
Me levam a você
De um jeito desigual

Quem sabe, então, por um acaso
Perdido no tempo ou no espaço
Seus passos queiram se juntar aos meus
Seus braços queiram se juntar aos meus

Mil acasos me levam a você
No início no meio ou no final
Mil acasos me levam por aí
Na espuma do tempo, no temporal
Mil acasos me dizem o que sou
Ateu praticante, ocidental
Me levam a você
De um jeito desigual

Quem sabe, então, por um acaso
Perdido no tempo ou no espaço
Seus passos queiram se juntar aos meus
Seus braços queiram se juntar aos meus

7. Lugar

Lugar

Samuel Rosa - César Maurício

Voltei pra ler aquele olhar
De um amor que a gente mesmo escreveu
Que foi guardado sem pensar
Nas linhas de um desejo meu

Fiquei olhando todo espaço
Recriando um compasso seu
Sorri sonhando em qual gaveta
Nosso amor se escondeu

Mas guarde seu nome pra mim
Seus dias eu não deixo mais ter fim
O vento arde em versos por saber
Nessa tarde o sol é só por você

Chorei por ver nesse lugar
O que a palavra já teceu
Sou do seu tempo um retrato
Quando meu sonho era todo seu

Sorri por ver no nosso amor
Todas as portas pra você e eu
Fiquei pensando em qual cometa
Nosso amor adormeceu

Mas guarde seu nome pra mim
Seus dias eu não deixo mais ter fim
O vento arde em versos por saber
Nessa tarde o sol é só por você

8. Notícia

Notícia

Samuel Rosa - Humberto Effe

O tempo veio hoje me encontrar
Parando na minha janela
O tempo só chegou pra me dizer
Tudo que não pude perceber

Depois de mudar tanto o que toquei
O tempo vem trazendo algumas marcas
Na rua e no meu coração
Parece que alguém perde a razão

O tempo passa e nunca me avisou
E agora começa a acontecer
Aqui tão longe, ali bem mais perto de você
Ferve demais nesse verão

O tempo choveu fora da estação
Por isso me chamou pra uma conversa
Na rua e no meu coração
Parece que alguém perdeu a certeza

O tempo veio hoje me encontrar
Ainda quer me dar uma chance
O tempo só chegou pra me dizer
Tudo que não pude perceber

A onda imensa bate e leva a casa que vivi
O vento é forte e fortes não são as cidades que ergui
Algum mal fiz pra tanta resposta má
Do sol, montanha, vento e mar

Existe um céu de mísseis e de escudos contra mim
Um céu de estrelas de cometas me chama
Eu vou pedir, pedir que eu possa prosseguir
Entre o sol, montanha, vento e mar

A luz batendo no meu rosto é o sol mais quente que senti
Queimando planta, gente e tudo que nasce por aqui
Algum mal fiz pra tanta resposta má
Do sol, montanha, vento e mar

O tempo veio hoje me encontrar
Vem me falar de uma chance

9. Garrafas

Garrafas

Lelo Zaneti - Chico Amaral

As garrafas jogadas no chão
As garotas vestidas ou não
Os bongôs marroquinos nas mãos
E ela me mostrou o seu violão que eu dedilhei

Quando alguém chegou nesse exato momento
Mas alguém chegou nesse exato momento
Sei que alguém chegou nesse exato momento

As garrafas vazias nas mãos
As garotas despidas ou não
Os bongôs marroquinos no chão
E ela me mostrou uma flor lilás que eu aspirei

Quando alguém chegou nesse exato momento
Mas alguém chegou nesse exato momento
Sei que alguém chegou nesse exato momento

As janelas abertas, o céu
O dourado das folhas no azul
Estilhaços de nuvens no mar
E ela se envolveu lua no lençol e adormeceu

E o sol nasceu nesse exato momento
E o sol chegou nesse exato momento
E o sol bateu nesse exato momento

10. Panorâmica

Panorâmica

Samuel Rosa - Chico Amaral

De repente aquela esquina era mais que um lugar
Era o encontro casual do céu e do seu olhar
A melancolia dos verões entardecendo
Contornava as paredes de um hotel
E a tarde se desfez na linha do horizonte

Agora eu sei quanto tempo faz
E quando eu fiquei à espera do perigo
Você ficou para sempre na lembrança

No silêncio, na distância
E no lago azul da noite imensa
Meu corpo segue vertical
Pensando em você

De repente aquela esquina era mais que um lugar
Era quase exato tudo que havia em mim
Solidão, conforto e o coração se esvaindo
Como os tons da tarde morta lá no céu

11. Balada Pra João e Joana

Balada Pra João e Joana

Samuel Rosa - Chico Amaral

Então os dois se acharam na escuridão
Ela com os pés no chão e ele não
Seu destino cego a lhes conduzir
Sua sorte à solta a lhes indicar um caminho
E dançavam lá em meio a tanta gente
Se encontraram ali

O mundo está tão mau lá fora
Onde irão vocês agora

E tudo aconteceu
Quando as mãos se tocaram
Quando os olhos nem viram
Quando a noite chegou

Então eles se deram na convicção
Feitos um pro outro, mas por exclusão
Seu destino cego a lhes conduzir
Sua sorte à solta a lhes indicar um caminho
E dançavam lá em meio a tanta gente
Se encontraram ali

Cai um temporal lá fora
Onde irão vocês agora

E tudo aconteceu
Quando as mãos se tocaram
Quando os olhos nem viram
Quando a noite chegou

E tudo estremeceu
As paredes do tempo
Os telhados do mundo
As cidades do céu

Eram os dois avessos aos normais
Ela com os pés no chão, e o chão se abriu
Um abismo
E dançavam lá em meio a tanta gente
Se perderam ali

Nada para, nada espera
Que o destino assim quisera

E tudo aconteceu
Quando as mãos se tocaram
Quando os olhos nem viram
Quando a noite chegou

E tudo estremeceu
As paredes do tempo
Os telhados do mundo
As cidades do céu

12. Trancoso

Trancoso

Samuel Rosa - Arnaldo Antunes

Um colar de contas daqui vou te levar
Um colar de conchas do mar pra te cobrir
Pra você ver da varanda
Vou fotografar as plantas que ainda vão se abrir

Um anel de coco daqui vou te levar
E no búzio um pouco do mar pra se ouvir
Melodias de sereia e nos pés da areia
O bater das ondas que não para
Não vai parar para acompanhar
O silêncio sem fim que eu guardo agora
Em minha boca pra te dar

Sobre o mesmo rastro dos pés que o mar levou
Reconheço um pouco de mim que aqui ficou
E da beira da distância, numa mesma dança

Chuva, sol e chuva e sol não param
Não vão parar para alimentar
O horizonte sem fim que carrego agora sobre a pele
Ao caminhar para acompanhar um outro de mim
No meu corpo, outra vez em você

13. Antitelejornal

Antitelejornal

Samuel Rosa - Rodrigo F. Leão

Hoje nasce meu filho
Hoje vou me casar
Hoje dentro do espelho
Vou poder enxergar
Pais, mães, irmãos
Ruas, bairros, cidadelas
E o quintal dos corações
Onde moram as coisas belas

Hoje vou namorar
As solteiras e as casadas
As jovens, as carquebradas
As lindas e as descuidadas
Meu amor vai se espalhar
Pelas camas e calçadas
Nas prisões e condomínios
Nas favelas e esplanadas

Sem farsa, conchavo, sem guerra
Sem malta, corja ou trapaça
A vida é um drible ágil
Entre as pernas da desgraça
Eu vou

Hoje eu vou inventar
O antitelejornal
Pra passar só o que é belo
Pra passar o essencial, eu vou

Hoje andarei sobre as flores
Amarelas do ipê
Espalhadas pelo chão
Antes de anoitecer
Cantarei no meu velório
Dançarei nos braços da vida
Dormirei com a minha ama
Vida boa de ser vivida

Sem farsa, conchavo, sem guerra
Sem malta, corja ou trapaça
A vida é um drible ágil
Entre as pernas da desgraça
Eu vou

Hoje eu vou inventar
O antitelejornal
Pra passar só o que é belo
Pra passar o essencial, eu vou

14. Seus Passos

Seus Passos

Samuel Rosa - César Maurício

E quando caio do seu bolso
Escorrego pelo rosto
Nossos beijos e palavras
Ficam soltos no lugar

E o que dizer desse segundo
Distraído do olhar
Que no infinito corre mundo
Onde o céu encontra o mar

Nesse jogo de reflexo
A certeza me distrai
Seu desejo é meu início
E eu estou tão perto agora, eu sei

Você vai dizer que não
Eu sigo seus passos
A caminho do meu coração
Você vai dizer que não
Eu sigo seus passos

Uma curva, não um risco
Alegria é como um vício
Nesse livro nossa história
Estampada em seu olhar

Nesse jogo de reflexo
A certeza não nos trai
Seu desejo é meu início
E eu estou tão perto agora, eu sei

Você vai dizer que não
Eu sigo seus passos
A caminho do meu coração
Você vai dizer que não
Eu sigo seus passos
O caminho é meu coração

15. Um Homem Solitário

Um Homem Solitário

Samuel Rosa - Chico Amaral - César Maurício

No desterro do coração
Vi um homem só, sob o sol
Que andava a procura da sorte
Na estrada que escolheu

No deserto do seu olhar
Quantos sonhos vão se esconder
Mas agora ele só se entendia
Com as feras nos covis

E quando a noite vem
Trazendo a solidão
É sua a senha pra seguir

Tudo que queria então
Era caminhar sob o sol
Esquecer o amargo do dia
E a sorte que sonhou ter

E quando a noite vem
Trazendo a solidão
É sua a senha pra seguir

Andar nas constelações esquecidas
Pensar nos perdidos amores
Tão errantes quanto ele
Sem sinal de redenção

Tudo que queria então
Era caminhar sob o sol
Esquecer o amargo do dia
E a sorte que sonhou ter

E quando a noite vem
Trazendo a solidão
É sua a senha pra seguir

Andar nas constelações esquecidas
Pensar nos perdidos amores
Tão errantes quanto ele
Sem sinal de redenção

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